segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Coisas de dormir no transporte - O lado de quem dorme

A trilogia do sono - Parte 2

Se você é daqueles que não entende como alguém consegue dormir recostando "confortavelmente" sua cabeça em um vidro sujo e trepidante dos transportes coletivos, ou balançando de um lado para o outro, jamais entenderá como o sono é voraz em certos momentos da vida. Só o cansaço é capaz de nos vencer.



Tudo começa, quando após um dia cansativo, ao adentrar em um veículo e encontrar acento vago. Uma maldição disfarçada de benção. Você pensa: "Mas era só o que eu podia pedir depois deste dia infernal, um acento vago"; e eu acrescentaria: "...para me tornar o palhaço da vez".

Você se senta, e não percebe nada de mais. Está parado, imóvel ao lado de outro sortudo, com sua cara de peixe-morto que só aqueles que passam muito tempo em locais públicos lotados sabem fazer. Faz um movimento reflexivo, banal, que está fora do nosso controle humano, quase tanto quanto respirar: pisca. E logo percebe alguns sorrisos cínicos e marotos das pessoas. "Mas o que é que tem de tão engraçado em 'viver'? Esse cara está me tirando!". Coisas assim passam pela sua imaginação. E você respira fundo e pisca novamente, e tudo o que vê são peixes mortos.

Então você acorda. Simplesmente acorda quando outro reflexo lhe faz jogar a cabeça para cima novamente. "Novamente", sim, porque não foi a primeira vez. Estas coisas quando chegamos a perceber por conta própria é porque todos os outros já notaram.

E você acorda novamente. Nenhum esforço para manter-se acordado parece surtir qualquer efeito. E você acorda... pela última vez, decidido a tomar controle da situação: dorme por vontade própria.

Se estiver ao lado da janela, simples, nada nunca foi tão confortável quanto um vidro sujo e saculejante do início deste ensaio. Se ao seu lado, encontrar-se uma janela viva, ou um peixe morto, sua cabeça parece procurar o ombro amigo mais próximo. Aqui só é necessário o cuidado de dormir de boca fechada, mas mesmo assim você não está livre de ser acordado pelo "ombro amigo" lhe arremessando para o outro lado.

Aqui entra uma questão de gosto e ponto de vista. O que pode parecer um ato de tremenda grosseria, "agredir" uma pessoa indefesa e sonolenta, é na verdade uma benção disfarçada de maldição. Pois caso contrário você perderia a parada/estação. Por outro lado, ganharia mais um percurso da viagem para tirar o atraso do sono e ocupar a noite com coisas muito mais importantes. Usem camisinha.

Nenhum comentário: